Daredevil Born Again: O fantasma de Foggy e a misericórdia que salva Matt Murdock
Daredevil enfrenta o peso da misericórdia, o legado de Foggy, o dilema de Bullseye e a queda emocional de Wilson Fisk.
ANÁLISESSÉRIESMARVEL
Racnela
4/23/20268 min ler


Daredevil Born Again: O fantasma de Foggy e a misericórdia que ainda salva Matt Murdock
"How about mercy? There's gotta be something about that in the Bible. Second chances, redemption..."
Esse foi o grande dilema deste episódio.
O episódio 5 da segunda temporada de Daredevil: Born Again, intitulado The Grand Design, não é apenas um capítulo de transição depois do caos do combate no ringue. É uma pausa dolorosa, íntima e profundamente moral. Um episódio sobre consequências, luto, culpa e, acima de tudo, misericórdia.
Depois de uma temporada marcada por violência crescente, pela ascensão política de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) e pelo regresso destrutivo de Benjamin “Dex” Poindexter, Bullseye (Wilson Bethel), este episódio decide olhar para dentro das personagens. Em vez de apostar apenas na pancadaria, a série pergunta algo muito mais difícil: o que resta de um herói quando ele é obrigado a salvar o homem que matou o seu melhor amigo?
E é aí que Foggy Nelson (Elden Henson) volta a ser essencial.
Onde estamos na temporada?
Até este ponto, Born Again levou Matt Murdock, Daredevil (Charlie Cox) a um dos seus estados mais frágeis. A morte de Foggy no início da nova fase deixou uma ferida que nunca cicatrizou. Karen Page (Deborah Ann Woll) continua ligada a esse trauma, a cidade está cada vez mais dominada pela máquina política de Fisk e a Força Tarefa Anti Vigilantes tornou-se uma ameaça direta a qualquer pessoa mascarada.
No episódio anterior, a tentativa de ataque de Bullseye durante o evento de boxe termina em tragédia. Vanessa Fisk (Ayelet Zurer) é gravemente ferida, deixando Fisk à beira do colapso emocional. Dex, também ferido, fica nas mãos de Matt. E Matt tem todos os motivos do mundo para o abandonar.
Mas não o faz.
É aqui que The Grand Design encontra o seu verdadeiro centro.
O fantasma de Foggy Nelson
Matt Murdock: “This city needs me in that mask, Foggy.”
Foggy Nelson: “Maybe you’re right… maybe it does… but I don’t. I only ever needed my friend.”
Foggy está morto, mas este episódio mostra que a sua presença continua a orientar Matt. Não como uma aparição sobrenatural, mas como algo muito mais forte: uma consciência moral.
Os flashbacks levam-nos aos primeiros tempos de Nelson e Murdock, quando Matt e Foggy ainda estavam a construir o que viriam a ser como advogados e como homens. O caso de Lionel “Ray” McCoy (Nathan Wallace) é fundamental porque coloca os dois perante uma questão ética que ecoa diretamente no presente.
Ray não é inocente no sentido clássico. Foi violento, cometeu erros e até teve uma história dolorosa com Foggy no passado. Matt olha para ele com dureza. Foggy, pelo contrário, insiste em vê-lo como alguém que ainda pode ser salvo.
É isso que diferencia Foggy. Ele não é ingénuo. Ele sabe que o mundo é feio. Mas recusa aceitar que uma pessoa deva ser reduzida ao pior momento da sua vida.
Essa é a grande herança que deixa a Matt.
Na temporada anterior, Matt disse sobre Foggy:
“We can work up a lifetime and never measure up to his decency.”
Essa frase torna-se ainda mais poderosa neste episódio. Matt sabe que nunca será tão naturalmente bom quanto Foggy. Sabe que carrega raiva, violência e contradição. Mas também sabe que, se quer honrar o amigo, não pode transformar o luto em vingança.
"Mercy": O peso filosófico da misericórdia
A palavra central do episódio é mercy. Misericórdia. Não como fraqueza. Não como perdão fácil. Mas como uma das formas mais difíceis de coragem.
Matt salvar Bullseye não significa desculpar Bullseye. Não significa esquecer que Dex matou Foggy. Não significa apagar a dor de Karen ou a ferida aberta em Hell’s Kitchen. Significa apenas uma coisa: Matt recusa tornar-se aquilo que a dor quer fazer dele.
A misericórdia, neste episódio, não é sentimental. É brutal.
Porque salvar alguém que amamos é fácil. Salvar alguém que merece a nossa compaixão também. Mas salvar o homem que destruiu a nossa vida exige um tipo de força quase impossível. É aqui que a série aproxima Matt da sua dimensão mais religiosa e filosófica. Ele não é santo. Não está em paz. Não perdoou completamente. Mas decide agir como se ainda acreditasse que a vida humana tem valor, mesmo quando essa vida pertence a Bullseye.
Esse é o ponto mais importante de The Grand Design: a misericórdia não absolve o culpado. Salva quem a pratica de ser consumido pelo ódio.
Matt não salva Dex porque Dex merece.
Matt salva Dex porque Foggy merecia que Matt fosse melhor.
Bullseye e a redenção torta de Dex
Benjamin “Dex” Poindexter está longe de ser uma figura redimida. O episódio não tenta transformá-lo num coitado ou num herói trágico. Dex continua perigoso, instável e responsável por danos irreparáveis.
Mas também já não é apenas a arma perfeita que Fisk manipulou no passado.
Ao longo do episódio, Dex demonstra consciência do que fez. Ele sabe que matou Foggy. Sabe que destruiu Matt. Sabe que talvez não exista retorno possível. A sua ideia de equilíbrio é perturbadora: matou Foggy, feriu Vanessa e agora aceita morrer como se isso fechasse a conta moral.
Mas a justiça não funciona como matemática.
Dex quer que a morte seja castigo, fuga e purificação ao mesmo tempo. Matt recusa essa lógica. Ao salvá-lo, obriga-o a continuar vivo com as consequências.
E talvez seja essa a verdadeira punição.
O trajeto de Bullseye é fascinante porque ele tenta corrigir o que fez, mas fá-lo através de impulsos violentos e distorcidos. Ele quer equilíbrio, mas continua a pensar como assassino. Quer redenção, mas não sabe viver sem destruição.
Por isso, a misericórdia de Matt é também um desafio. Se Dex sobrevive, terá de enfrentar algo muito mais difícil do que a morte: a responsabilidade.
Wilson Fisk e o fim da última âncora
Do outro lado do episódio está Wilson Fisk, e a série constrói um espelho perfeito entre ele e Matt.
Matt é assombrado por Foggy. Fisk é assombrado por James Wesley (Toby Leonard Moore) e por Vanessa. Os flashbacks mostram o início da relação entre Wilson e Vanessa, ligada ao quadro Rabbit in a Snowstorm, símbolo que acompanha o casal desde a era Netflix.
Vanessa nunca foi apenas o grande amor de Fisk. Foi a sua bússola. A pessoa que tornava possível alguma ilusão de humanidade dentro do Rei do Crime.
Quando Vanessa morre, essa ilusão desaparece.
A morte dela não cria um novo Fisk. Revela o verdadeiro Fisk que ainda estava por baixo da fachada de prefeito. O homem que tentava vestir legalidade, ordem e legitimidade perde a única pessoa capaz de conter o abismo dentro dele.
No episódio 6, Requiem, vemos imediatamente as consequências. Fisk mata o médico que tenta consolá-lo e mergulha ainda mais na brutalidade. A cidade que ele dizia querer salvar passa a estar nas mãos de um homem em luto, sem travão emocional e com poder político real. Diversas críticas ao episódio 6 destacam precisamente este ponto: a morte de Vanessa remove a última camada de contenção de Fisk e empurra Nova Iorque para uma fase ainda mais perigosa.
Punisher, Karen e a resistência em Hell’s Kitchen
Embora Frank Castle, Punisher (Jon Bernthal) não esteja no centro de The Grand Design, a sua sombra permanece sobre a temporada. Frank representa a resposta oposta à de Matt. Para o Punisher, alguns homens não devem ser salvos. Devem ser eliminados.
É por isso que este episódio é tão importante para definir Matt. Perante Bullseye, ele podia escolher o caminho de Frank. Podia aceitar que Dex é irrecuperável. Podia deixá-lo morrer e chamar a isso justiça.
Mas Matt não é Frank Castle.
Essa diferença é essencial para perceber o Demolidor. Ambos conhecem a dor. Ambos perderam pessoas. Ambos foram moldados pela violência. Mas Matt ainda tenta acreditar que existe uma linha que não pode atravessar.
Karen Page também se torna central neste dilema. Para ela, a misericórdia de Matt é quase uma traição emocional. Como aceitar que ele salve Bullseye, o homem que matou Foggy e tentou destruir tudo o que amavam? A tensão entre Matt e Karen ganha força no episódio 6, quando ela confronta a decisão dele e questiona até onde essa compaixão pode ir sem se tornar autodestruição.
O episódio 6 e o preço da misericórdia
O episódio 6, Requiem, mostra que a misericórdia nunca vem sem consequências. Matt salva Bullseye, mas isso cria tensão com Karen e coloca a resistência numa posição moralmente instável. Ao mesmo tempo, Jessica Jones (Krysten Ritter) regressa ao universo Marvel com uma nova camada de vida pessoal, incluindo a filha Danielle, uma revelação que também aponta para ligações futuras com Luke Cage (Mike Colter).
Mas o mais importante é que Matt tenta aplicar a mesma lógica de misericórdia a Fisk. Depois de Vanessa morrer, Matt procura uma espécie de trégua com o Rei do Crime, tentando falar com o homem por baixo do monstro. É uma decisão coerente com The Grand Design, mas também perigosa. Porque, ao contrário de Dex, Fisk não parece querer redenção. Quer compensar a dor com controlo.
E quando Matt tenta encontrar humanidade em alguém que está a enterrá-la de propósito, a misericórdia pode tornar-se vulnerabilidade.
The Grand Design e o plano maior de Matt Murdock
O título do episódio tem uma leitura espiritual evidente. “The Grand Design” remete para a ideia de que só conseguimos perceber o desenho completo da vida quando vemos o outro lado da tapeçaria. Esta imagem já dialoga com a tradição religiosa da série e com o discurso de Matt no funeral do Padre Lantom.
Matt está no ponto em que consegue finalmente ver algumas linhas desse desenho. A morte de Foggy, a sobrevivência de Dex, a queda de Vanessa, a fúria de Fisk, tudo parece absurdo quando visto de perto. Mas o episódio sugere que a única resposta possível ao caos é escolher, repetidamente, não se tornar parte dele.
Foggy ensinou isso a Matt. Não com grandes discursos, mas com gestos.
Dar uma hipótese a Ray. Acreditar num cliente difícil. Inverter o nome da firma para Nelson e Murdock. Mostrar que a decência pode ser mais revolucionária do que qualquer soco.
Foggy era o melhor de Matt sem a máscara.
Conclusão: A misericórdia como último ato de resistência
The Grand Design é um dos episódios mais fortes de Daredevil: Born Again porque entende algo essencial: o verdadeiro conflito de Matt Murdock nunca foi apenas contra criminosos. Foi sempre contra a parte de si que quer desistir da misericórdia.
Bullseye matou Foggy. Fisk destruiu vidas. Vanessa morreu. Karen está ferida. Frank Castle continua a lembrar que há um caminho mais simples e sangrento. Hell’s Kitchen está cercada por medo e poder político.
Mesmo assim, Matt escolhe salvar.
Não porque seja fácil.
Não porque seja justo.
Não porque Dex mereça.
Mas porque Foggy Nelson ainda vive nele.
E talvez essa seja a mensagem mais bonita e mais dolorosa do episódio: a misericórdia não muda necessariamente o mundo. Mas impede que o mundo nos transforme por completo.
Nota 10/10
Num episódio onde a misericórdia pesa mais do que qualquer soco, Daredevil lembra-nos que salvar alguém pode ser o ato mais difícil de todos.
Quando Matt escolhe não ceder ao ódio, percebemos que o verdadeiro combate nunca foi contra os inimigos… mas contra si próprio.
Nota IMDb: 9.1
Nota Aranha Velocista: 10








Explore o melhor da cultura pop connosco!
contato@aranhavelocista.com
+351 935346945
© 2024. All rights reserved.
